Rodrigo Cabot (*)
A Copa do Mundo de 2026 deve marcar uma mudança de patamar no uso da tecnologia no futebol. Durante muito tempo, ela esteve presente mais como apoio. Agora, passa a influenciar de forma mais direta o desempenho físico, a análise tática, a arbitragem e a experiência de quem acompanha o torneio ao redor do mundo.
Essa mudança aparece em diferentes frentes. A FIFA vem avançando no uso de Inteligência Artificial e análise de dados para apoiar rendimento, leitura tática e assistência arbitral. Ao mesmo tempo, sensores integrados, reconstruções em 3D e sistemas automatizados voltados a detectar trajetórias e apoiar decisões em tempo real mostram que a tecnologia já não atua apenas depois do lance: ela passa a interferir mais diretamente na forma como o jogo é analisado e administrado.
No Brasil, a implantação do impedimento semiautomático nos 19 estádios da Série A ajuda a ilustrar esse movimento. A tecnologia entra agora em nova fase, com integração ao VAR, softwares complementares, testes finais e treinamento dos árbitros antes da liberação para uso. Ou seja: mais do que colocar uma ferramenta em campo, a mudança depende de integração entre sistemas, preparação operacional e capacidade de fazer a tecnologia funcionar com precisão em tempo real.
Mas o que muda em 2026 vai além do jogo em si. A Copa também deve expor o tamanho da infraestrutura tecnológica necessária para sustentar um evento global dessa magnitude. Serão 48 seleções, 104 partidas, milhões de pessoas nos estádios e bilhões de espectadores interagindo simultaneamente com plataformas digitais, aplicativos móveis, transmissões ao vivo e sistemas de informação em tempo real. Em uma operação assim, tecnologia deixa de ser apoio e passa a ser parte da própria entrega.
É por isso que a discussão fica mais ampla. Por trás de cada transmissão, credenciamento, sistema de ingressos, plataforma de streaming ou decisão arbitral, existe uma arquitetura tecnológica que precisa funcionar com margem mínima para erro. Quando falha, o impacto deixa de ser técnico e passa a afetar experiência, reputação e continuidade. Em eventos desse porte, qualidade de software, testing automatizado, monitoramento contínuo e cibersegurança deixam de ser temas de bastidor e ganham papel estratégico.
Essa transformação também muda a lógica de gestão do esporte. A IA já não serve apenas para analisar o que aconteceu em uma partida, mas para identificar padrões, antecipar cenários e apoiar decisões antes que um problema apareça. É uma dinâmica que aproxima o futebol de setores como saúde, logística, banca e finanças, onde o uso de dados em tempo real já ajuda a otimizar operações, reduzir riscos e melhorar a tomada de decisões.
Nesse contexto, a vantagem competitiva tende a depender menos da simples presença da tecnologia e mais da capacidade de usá-la com precisão, integração e inteligência. No fundo, é isso que a Copa de 2026 deve deixar mais visível: a mudança não está só em gerar mais dados, mas em conseguir transformá-los em decisões úteis, respostas rápidas e operações mais consistentes em tempo real. Essa lógica já atravessa empresas de diferentes setores e ajuda a explicar por que o futebol passa a funcionar, cada vez mais, como uma vitrine de transformações que vão muito além do esporte.
(*) Rodrigo Cabot é Gerente de P&D da Ecosistemas Global. Engenheiro de Computação pela UNLAM, possui pós-graduações em Administração de Organizações Financeiras (UBA) e em Gestão Estratégica de Inteligência Artificial (UCEMA). Atualmente lidera iniciativas de inovação tecnológica da empresa em diversos países, incluindo Argentina, Brasil, Chile, Espanha, México e Estados Unidos. Com mais de 25 anos de experiência em TI, coordenou projetos de transformação digital, automação e melhoria contínua em setores como bancos, seguros, energia e saúde.
(*) Rodrigo Cabot, Gerente de P&D – Ecosistemas Global
O post Dados, algoritmos e futebol: o que muda na Copa do Mundo de 2026 apareceu primeiro em Comex do Brasil.